terça-feira, 29 de maio de 2007

"30 anos de paixão são-paulina"

Texto de Vitor Guedes, amigo querido, que saiu publicado em sua coluna no jornal Agora esse final de semana que passou. Valeu, adorei a homenagem que fez para os trinta anos de casamento dos meus pais!
"Rui era um dos galãs mais cobiçados de São Paulo nos anos 70. As mulheres não resistiam ao seu pega-rapaz, a virilidade exacerbada fantasiada de cafafestagem light, sua invejada habilidade como pé-de-valsa e ao contagiante humor, paradoxalmente, tão ferino quanto sutil.
O John Travolta do bairro da Saúde não podia se queixar da vida. Conseguiu o emprego dos sonhos ao passar no concurso do Banco do Brasil. Só três coisas importavam: mulher, futebol e emprego, necessariamente nesta ordem.
É difícil acreditar, mas fêmea demais enjoa. Rui, entediado com aquela rotina de mexer na poupança de uma cliente, aplicar no fundo de outra, resolveu que era hora de investir em algo pouco rentável, mas seguro: casamento. Tinha poucas exigências: a garotinha só precisava ser lindíssima, séria, inteligente e são-paulina. Não admitia, sob hipótese alguma, que seu sangue azul fosse misturado com o que define como plebe alvinegra.
E na agência Luz do Banco do Brasil, depois de capitalizar com gerentes, caixas e faxineiras, seu coração parou na malha fina de Cristina. Bastou um olhar para ele saber que quase todos os pré-requisitos estavam previamente aprovados. Faltava checar o detalhe fundamental. Ao apurar que o coração de Cris também batia pelo São Paulo, Rui não teve dúvidas: era ela! O problema é que a caixa não era o tipo de mulher que ele estava acostumado a lidar. De família tradicional da Bela Vista, do tempo que o Bixiga ainda não era só arranha-céu, a castanha clara de rebolado mulato era jogo duríssimo. Investimento vantajoso, não resta dúvida, mas de alto risco. Qualquer vacilo poderia significar um definitivo cartão vermelho. Não foi fácil, mas com aquela lábia de quem estava acostumado a empurrar seguro contra incêndio até para sem-teto, o ex-mulherengo se deu bem.
Casaram-se. Mas Rui teve de aceitar uma imposição. Enciumada com o currículo de conquistas do marido dentro do local de trabalho, a bancária exigiu que trocassem de agência. Antes de serem transferidos para Caraguatatuba, o primogênito André, topetudo como o pai, e Aline, de um charme abundante como a mãe, vieram ao mundo. Já em Caraguá, o casal ganhou mais um presente, o quinto são-paulino da família 100% tricolor: Alexandre.
Hoje, o casal, já curtindo a merecida aposentadoria na base de água de coco nas sombras formadas pelas palmeiras da badalada praia Martim de Sá, está completando 30 anos de casamento. A paixão é a mesma. O charme de Cris - acrescido de maturidade e sol na pele tão bem desenhada por Deus - idem. Já os seus cabelos... O pega-rapaz de Rui ficou no passado. Recentemente, até a morte de Raul Cortez, fogosas senhoras rasgavam-se na orla, e Rui dava autógrafos passando-se pelo ator.
Cabelos à parte, como diz Rui, "o importante é ter cabeça". E ele teve para formar um lar onde a paixão ocupa mais espaço do que em qualquer coração de torcedor fanático."

Um comentário:

DeMi disse...

Belíssimo! E já disse: Parabéns aos dois!!!!
Beijos